christian camilo - camiloart

Crônicas fotográficas – A última foto: a do bolo
por Christian Camilo

Em uma casa de campo um almoço está acontecendo.
Um casamento se celebrou há poucos minutos no jardim.

Os protagonistas desta história não são os noivos jovens, bonitos e felizes com o futuro que agora vislumbravam como casal.

Entre taças de vinhos, risadas, pratos sendo servidos, duas histórias se chocariam na hora da sobremesa.

Nas paredes da casa de campo, muitas fotos de cavalos. Todas pertenciam a anfitriã da festa, uma senhora nos seus 70 anos, magrinha, de aparência frágil, mas de uma beleza cativante. Era belga, proprietária do sítio e amiga da família de longa data. Num passado distante, fora praticante de diversas competições de salto a cavalo. E por isso vou chama-la de Amazona.

Amazona era dada: fácil concluir isso pois abraçava todos os convidados da festa, lhe servia vinhos variados, contava histórias sobre seus cavalos, suas quedas, seus antigos namorados que lhe mimavam com cavalos…irradiava alegria de maneira despreocupada. Uma perfeita anfitriã para uma cerimônia intima não ficar tediosa.

Andando entre convidados estava um fotógrafo cobrindo os momentos com maestria e muita discrição. “Responsável”, poderia ser esse o nome do fotógrafo Fernando. Talentoso e sensível, provavelmente foi um dos melhores fotógrafos que já conheci. Suas fotos captavam expressões de alegria, olhares apaixonados, e a rara emoção doce que os homens mais brutos muitas vezes expressavam num vacilo de meio segundo.

Poucos sabiam que Fernando sofria fotografando casamento.

Pouco sei de como esse sofrimento surgiu, mas a verdade é que com o passar dos anos Fernando foi desenvolvendo um senso de responsabilidade um tanto “pesado” para com si próprio. Tinha pesadelos que lhe tirava até o sono: sua câmera quebrava durante a cerimônia; esquecimento de compromissos, esquecimento de datas….estes eram medos que atormentavam seu descanso. Fotografar casamentos começou a trazer dores físicas além das psicológicas.

Quando estava atrás da câmera sua concentração limpava as preocupações de sua mente . Mas a tensão entre clicks deixava seu corpo cansado. Fernando tinha cada vez menos prazer em fotografar casamentos. Sentia muita responsabilidade. Ironicamente o trabalho e o reconhecimento pelo seu talento não paravam de vir. Clientes choviam na sua porta.

Voltemos ao almoço. Ao fim do almoço dessa crônica.

A nossa amazona está cantando uma música tradicional francesa.
O efeito do vinho servido por ela aos convidados começa a deixar todos alegres.

A noiva diz: “Vamos cortar o bolo”?

Fernando, atento a toda cena, corre para se posicionar.
Uma cena clássica: A noiva cortando o bolo, as vezes sozinha, as vezes com o noivo.

O fotógrafo se encaminha para a mesa decorada. O bolo já repousa aguardando seu olhar sensível e a noiva que se encaminha.

Nossa Amazona, neste breve momento dos deslocamentos de fotógrafo e noiva coloca um vinil para tocar.

Não me recordo a música, mas se fosse a cena de um filme eu colocaria esta.

A espontânea felicidade que irradiava era uma coisa linda de se ver. Diria que qualquer ser humano se apaixonaria por Amazona como admiramos a beleza da natureza. Posso afirmar que com a música tocando, ela flutuava entre todos os convidados, agitando o vinho em suas mentes com abraços acompanhando a música.

Fernando não ouvia a música. Ele estava atrás da câmera. Com um joelho tocando o chão e perna estendida atrás para lhe dar apoio. Via dentro da câmera o bolo e atras dele uma noiva sorridente segurando a faca prestes a cortar o bolo.

Ele dispara uma sequencia de fotos mantendo seu dedo no disparador da câmera.

Nesses microssegundos de disparo, sua perna estendida para trás, aquela do joelho no chão, sente um toque.

Tropeço.

Aqui poderíamos colocar uma cena em slow motion.
Fernando olha de canto de olho.
Voando, mas dessa vez literalmente voando, Amazona flutua horizontalmente paralela ao chão.

Em sua cabeça, Fernando já não sabe se está num pesadelo ou se está acordado.

Amazona voa de olhos fechados, projetando o impacto e segurando uma taça e uma garrafa de vinho.

Gradualmente o corpo de Amazona se aproxima do chão. Fernando vê aquela franzina senhora em direção ao esfacelamento total. Ossos quebrados, pescoço quebrado, batida de cabeça, sangue….tudo isso corre na imaginação de Fernando. A eternidade do momento, o estado de choque do fotógrafo, pareciam antecipar a morte de Amazona, de Fernando, ou provavelmente dos dois.

Fernando fecha os olhos.
Tudo apaga.

Risadas soam como ecos em um mundo nebuloso

Em alguns segundos ele está ouvindo a voz de nossa Amazona, com aquele sotaque francês…

Fernando abre os olhos e Amazona lhe diz gritando, e ao mesmo tempo sorrindo:
– Se tem algo que eu sei fazer menino é cair! Cair! Cair!!

Depois deste desmaio, o bolo foi último clique do maior fotógrafo de casamentos que já conheci.

mais Crônicas

Leave a Reply

FacebookTwitterGoogle
@
%d bloggers like this: